Mulher do caminhoneiro que apostou
Ele roda entre São Paulo e o Nordeste. Fica quinze dias fora, cinco em casa. A gente tem 22 anos de casada, dois filhos adultos. Casamento comum de gente comum.
Em fevereiro chegou um extrato do Banco Pan pelo correio, endereçado a ele. Consignado de R$ 18 mil que eu nunca tinha ouvido falar. Deixei em cima da mesa. Quando ele voltou pra casa perguntei.
Ele confessou tudo em vinte minutos. Não brigou, não escondeu depois de ver o papel. Contou do aviator no posto de gasolina, dos meses seguindo grupos no Telegram, dos R$ 40 mil que ele já tinha girado no total.
Não sabia se ia embora ou se ia ficar. Fiquei porque a gente já tinha passado por muita coisa junto. Mas não fiquei por pena. Fiquei porque ele topou tudo: terapia, CAPS AD, entregar todo cartão de crédito comigo, sem exceção.
Tem sete meses parado. Ainda não voltou a viajar sozinho, arrumou serviço mais perto, ganhando menos, ficando em casa mais. A gente tá reconstruindo devagar. Não sei se dá mesmo. Mas escrevo porque a mulher do apostador quase nunca escreve, e a gente também sofre.
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