Recomeço

Eu era a esposa — e ninguém escreve sobre nós

Anônimo1 leituras

Meu marido é apostador em recuperação há oito meses. Eu me apresento assim porque, por dez anos, foi essa a minha identidade principal. Antes de esposa, antes de mãe, antes de professora: eu era a mulher do apostador.

Quero contar o meu lado — não o dele. Porque os relatos aqui são quase todos escritos por quem apostava, e eu quero deixar um recado para as outras esposas, maridos, mães, pais e filhos.

O que eu fazia sem perceber

  • Pagava por baixo as dívidas dele para não brigar.
  • Escondia dos meus pais o que estava acontecendo.
  • Aceitava desculpa nova toda semana.
  • Fingia acreditar quando ele dizia que ia parar.

Eu chamava isso de amor. Uma terapeuta me chamou pelo nome certo: codependência. Ouvir a palavra doeu porque, no fundo, eu sabia. Estava mantendo a casa em pé, mas também estava sustentando o hábito.

O dia em que eu parei — não ele

Um dia sentei na sala, botei todas as contas na mesa e disse: "não vou mais pagar por você". Ele saiu batendo a porta. Voltou uma semana depois procurando ajuda de verdade. Eu não sou ingênua a ponto de dizer que foi por isso — foi ele que decidiu. Mas o meu não pagar foi, para ele, o primeiro sinal claro de que a rede embaixo tinha sumido.

Se você mora com alguém que aposta: parar de cobrir não é abandonar. É devolver o problema para o dono do problema.

Onde eu procurei ajuda

Existe um grupo específico chamado Gam-Anon, para familiares. Se você mora no Brasil, vale procurar os grupos ligados a Jogadores Anônimos — muitos têm reuniões abertas para familiares. E terapia individual. Terapia individual não é luxo, é oxigênio.


Compartilhar

WhatsAppXFacebook

Comentários (0)

Entre para deixar um comentário. Todos passam por moderação.

Ainda sem comentários.

Você também quer parar?

Você não precisa passar por isso sozinho. Comece pelos recursos de ajuda, ou envie seu próprio relato — anônimo, se preferir. Uma história pode acordar outra pessoa que ainda está caindo.